Texto/Foto: Ronei Bueno (MTE 17785/RS)
São Vicente do sul viveu um momento de mobilização neste sábado (18) em defesa da preservação do Clube União Beneficente General Vargas, instituição com 82 anos de história e considerada um dos principais símbolos da cultura afrodescendente do município. A comunidade promoveu uma caminhada simbólica até prédio do clube para chamar a atenção da Justiça e da sociedade para o processo judicial que poderá definir o futuro da entidade.
Segundo integrantes da diretoria, a mobilização tem como principal objetivo demonstrar que o Clube União representa um patrimônio histórico, cultural e social da cidade, cuja preservação interessa a toda a comunidade.
"O Clube União faz parte da história de São Vicente do Sul. Foi palco de casamentos, aniversários, eventos comunitários e, principalmente, representa um espaço de resistência da população negra, sendo um dos poucos clubes afrodescendentes ainda existentes na região", destacou a vice-presidente da entidade Fabiana Alonso Alves de Oliveira.
Julgamento poderá definir futuro da entidade
Atualmente, o processo encontra-se sob análise do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. O julgamento, previsto para o dia 27 de julho, decidirá se o imóvel será levado a leilão para quitação de uma dívida decorrente de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado anos atrás.
A dívida teve origem em sucessivas reclamações relacionadas à poluição sonora provocada pelos eventos realizados no clube. Conforme explicado pela tesoureira Seres Helena Nunes Martins, o imóvel deveria ter recebido adequações técnicas, como projetos de engenharia acústica, elétrica e estrutural, exigências que não foram integralmente cumpridas à época.
Com o descumprimento do TAC, foram aplicadas multas diárias que, segundo a direção da entidade, já ultrapassam R$ 1,2 milhão.
Apesar disso, os dirigentes afirmam confiar na reversão da situação judicial e destacam que novos documentos, fotografias, registros históricos e manifestações populares estão sendo anexados ao processo para demonstrar a relevância social da instituição.
Município trabalha pelo tombamento do clube
O secretário municipal de Cultura e Turismo, Felipe Della Pace Rosa, informou que a Prefeitura já conduz o processo de reconhecimento do Clube União como patrimônio cultural do município. Segundo ele, o Conselho Municipal de Cultura iniciou o processo de tombamento tanto do patrimônio material — referente ao prédio histórico — quanto do patrimônio imaterial, relacionado à importância cultural e à memória da população afrodescendente vicentense.
Enquanto o processo definitivo tramita, a administração municipal pretende publicar um decreto de tombamento provisório, medida prevista na legislação municipal. De acordo com o secretário, esse instrumento permitirá proteger as características arquitetônicas do imóvel e reconhecer oficialmente seu valor histórico, independentemente do desfecho da ação judicial.
Legislativo manifesta apoio
Durante a mobilização, o vereador Anderson Brum Félix também manifestou apoio à causa e afirmou que pretende conversar com os demais pares da Casa Legislativa para apresentar uma Moção de Apoio em defesa da preservação do Clube União.
O parlamentar destacou que a instituição integra a história do município e que sua preservação deve unir toda a comunidade, independentemente de diferenças sociais, políticas ou raciais.
Além da moção, a Câmara deverá buscar apoio junto a parlamentares estaduais e federais para fortalecer a defesa da entidade.
Espaço preserva memória da população negra
Fundado em uma época em que negros e brancos frequentavam clubes distintos, o Clube União tornou-se referência para a população afrodescendente de São Vicente do Sul, funcionando como espaço de convivência, lazer, manifestações culturais e fortalecimento da identidade negra. Para a diretoria, preservar o clube significa manter viva uma parte importante da história do município.
Caso a decisão judicial seja favorável à entidade, o objetivo é renegociar a dívida junto ao Ministério Público e iniciar um amplo projeto de revitalização do prédio.
A proposta prevê a criação de um Centro Cultural Afrodescendente, com museu, espaços para exposições, atividades culturais, manutenção da cancha de bocha, salão de eventos e ações voltadas ao resgate da história da população negra de São Vicente do Sul.
Além disso, a direção informou que já articula parcerias com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), profissionais das áreas de engenharia e arquitetura, bem como movimentos negros do Rio Grande do Sul, para elaborar um projeto completo de recuperação da estrutura.
Também foi informado que o Clube União Beneficente General Vargas já possui processo de registro junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), reforçando o reconhecimento de sua importância histórica.
Enquanto aguardam a decisão da Justiça, moradores, lideranças e autoridades esperam que a mobilização popular contribua para garantir a preservação de um dos mais importantes patrimônios culturais de São Vicente do Sul.